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Indígenas sul-mato-grossenses: uma história de luta pela sobrevivência

sábado, 17 de abril de 2004
Por: Assessoria de Imprensa/ALMS   Foto:  

Enfrentando dificuldades para sobreviver e resistindo aos avanços da modernidade, seis nações indígenas de Mato Grosso do Sul ainda tentam manter seus costumes, tradições e sua língua nativa. Os Kadiwéu, Guató, Terena, Ofayé, Caiuá e Guarani somam 53,9 mil índios no território de Mato Grosso do Sul, segundo o IGBE, colocando o estado como o segundo mais populoso do país, apesar de a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) reconhecer apenar 45 mil índios aldeados.

Os indígenas que vivem nas periferias das cidades não são reconhecidos pela Funasa. Este contingente de mais de 15 mil índios reside em 22 municípios de norte a sul do Estado, morando e trabalhando em condições precárias, mas buscando melhores condições para seus filhos. Sem recursos e um programa do Governo Federal para definir suas terras e programas de incentivo à agricultura para desenvolver sustentabilidade, a Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão responsável pela assistência às comunidades indígenas, assiste a agonia das comunidades e nada pode fazer para impedir o êxodo de suas terras para os trabalhos nas destilarias, fazendas e sub-empregos nas cidades.

Muito diferente das imagens que circulam na mídia nacional e internacional de índios com cocares coloridos, continuam lutando pela demarcação de suas terras e lutando por saúde, educação e programas para melhorar o desenvolvimento nas áreas indígenas. Ao contrário do que muitos imaginam, os índios de Mato Grosso do Sul, vivem da agricultura e da pecuária, integrados ao processo de desenvolvimento, como parte da sociedade.

A idéia romântica de silvícola vivendo da caça e da pesca não existe mais. As matas deram lugar às plantações de capim para pecuária, extinguindo o pouco da caça que restava. As reserva legais onde vivem estão cada vez menores em conseqüência do crescimento populacional. As terras indígenas estão distribuídas da seguinte forma: Região Norte 82,01%, Nordeste 2,58%, Centro-Oeste 15,10%, Sudeste 0,09% e Sul 0,21%. O total aproximado em dimensões territoriais é de 947.011 km quadrados ou 11,13% do território nacional.

Desde 1973, com a lei nº 6.001, o governo brasileiro está obrigado a demarcar todas as terras indígenas. Na Constituição Federal promulgada em outubro de 1988, ficou estabelecido um prazo de cinco anos para a conclusão das demarcações. Passaram-se onze anos e até o momento a grande maioria das áreas indígenas enfrenta pendências administrativas e judiciais, o que leva ao alastramento das invasões e das violências contra seus legítimos donos.

Aqui, reunimos algumas informações sobre estes povos que contribuíram para a ocupação humana de Mato Grosso do Sul, que tentaram em 500 anos assegurar seus territórios e ainda hoje brigam para manter seu povo unido. Os conflitos agrários estão presentes em sua mobilização por ineficiência dos poderes constituídos em demarcar suas áreas, de maneira que garanta a sobrevivência a quem foi incentivado a ocupar terra indígena no passado (agricultores desbravadores).

História
Cerca de setenta nações indígenas habitavam as águas limítrofes e internas do Pantanal, antes do Descobrimento do Brasil e estabelecidos nos grandes cursos d'água. Criavam rotas, caminhos, ocuparam campos de caça e eram avessos à agricultura. Mantinham servos cativos para estas tarefas e, assim, dominaram a arte da canoagem, da caça e da guerra.

As tribos indígenas que habitaram a planície pantaneira em épocas pré e pós colombianas deixaram à posteridade inscrições rupestres, utensílios domésticos e urnas funerárias que testemunham sua presença pioneira. A autenticidade dessas peças não tem sido contestada, mas elas não receberam ainda estudo aprofundado.

No Estado de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, no Pantanal, foram encontrados às margens dos rios grandes núcleos de "selvagens", os quais eram capturados e levados para longe de seu "habitat" natural, onde em pouco tempo morriam. Os habitantes dessa região, antes da chegada do homem branco, encontraram apenas dois caminhos de trânsito para o Pantanal. O primeiro  cruza o Rio Paraná, acima do Iguatemi, alcançando-se assim os campos de Vacaria. Ali se estabeleceram, posteriormente, os jesuítas, em Santiago de Xerez, e por ali cruzaram, no local conhecido como Passo dos Guaicurus, os bandeirantes paulistas. A segunda passagem é Chiquitos, um istmo (faixa de terra que liga duas áreas maiores) muito estreito de rochas antigas, que une as terras altas brasileiras. De fronte ao Porto Esperança, encontra-se o caminho que os jesuítas fizeram para fundar a república missionária dos Chiquitos, em território boliviano. As tribos do Pantanal que dominassem essas duas passagens obtinham hegemonia sobre as demais. Isso ocorreu com os m'bayas, dominadores dos guaranis desde a mais remota antigüidade. Talvez se deva a esse domínio, o fato de que no ano de 1850, já não constava na listagem dos índios da região, a tribo dos guaranis. Foram os missionários jesuítas espanhóis que mais tarde se destacaram na sua colonização, primeiramente em Guairá e depois na província de Itatim ou Santiago de Xerez, no território do sul de Mato Grosso, delimitada pelos rios Taquari e Apa.

Por volta de 1629, o Padre Ruiz de Montoya, embarcou em 300 canoas rumo às terras do sul do país, fugindo dos bandeirantes. Nas cachoeiras de Sete Quedas perderam todas as embarcações, o que os obrigou a seguir viagem por terra, e um grande número refugiou-se em território que hoje pertence a Mato Grosso do Sul, dando origem a reduções que passaram a constituir a Província de Itatim ou Itati, no curso médio do M'botetey (rio Miranda).

A Província de Itatim, que perdurou por quase 30 anos, achava-se estrategicamente localizada como ponto de apoio para espanhóis na conquista das regiões Amazônicas e das minas de prata do Peru, além do Brasil. Tinha como capital Vila Rica do Espírito Santo, localizada em território paraguaio.

Durante a sua permanência em MT e MS, os jesuítas tentaram aproximação com os povos Guaicuru e Paiaguás, não conseguindo, porém, catequiza-los como fizeram com o povo Guarani.

A preferência dos bandeirantes pelos indígenas aldeados pelos jesuítas explicava-se pelo fato de se apresentarem já domesticados, apesar de existirem vários relatos sobre jesuítas que lideraram a resistência contra os bandeirantes, como o caso do Padre Montoya, em 1629.

A província de Itatim era freqüentemente visitada pelos bandeirantes de São Paulo a caça de braço indígena para fundição de ferro de Aracoiaba da Serra e para lavouras de São Paulo, São Vicente e até mesmo Pernambuco, vendidos como escravos. Posteriormente abandonada, a Província de Itatim teve o seu território invadido por tribos chaquenhas, principalmente o Guaicuru.

O grupo tupi-guarani constitui um dos maiores que habitavam a América do Sul, abrangendo os territórios brasileiro, paraguaio, e argentino, subdividida em grupos ou tribos, falando a mesma língua, os mesmos costumes e a mesma religião. Sedentário, dedicava-se à lavoura, caça, pesca e à extração de frutos silvestres. Dentre os demais povos que habitavam a região centro-oeste, o Guarani se destacava culturalmente. Sua decadência e o desaparecimento de diversas tribos, foi ocasionada pelas entradas dos bandeirantes paulistas à procura de escravos. No Pantanal, dezenas de tribos desse povo ocupavam as margens dos rios desde o Paraná até o Miranda, e do Paraguai ao Apa.

As tribos indígenas não se estabeleceram a esmo pelo território. Os cursos d'água atuaram como fator preponderante. O rio, além de facultar o transporte mais rápido e mais cômodo, propiciava também sua alimentação.

A origem dos indígenas no Pantanal começa com os M'bayá - tronco de que descendem os guaicurus, paiaguás, guatós, terenos e os cadiuéus, cujos remanescentes são representados pelos cadiuéus, hoje semi-aculturados. Quando ocorreu o contato com os brancos, os m'bayas já se achavam divididos em numerosas hordas. Destas hordas, se destacaram pelo domínio do cavalo, os charruas, minuanos e os guaicurus. É impossível determinar o que ocasionou a destruição destas tribos e suas subdivisões posteriores. Nessa região, viviam tribos que falavam línguas diversas e apresentavam profundas divergências de cultura, embora tivessem muito em comum e ao que tudo indica, não tinham uma convivência pacífica e muito menos homogênea. As diferenças culturais, sociais e de domínio eram gritantes. Os primeiros habitantes do Pantanal não falavam uma única língua. Influências múltiplas, de várias correntes anteriores à colonização, fizeram com que cada grupo usasse um vocabulário próprio.

Os ribeirinhos como os canoeiros Guató e Paiaguás, tiravam toda sua subsistência do rio Paraguai e só se afastavam na época da cheia. Outras tribos, constituídas de seminômades e coletores como os guaicurus, viviam em terra, e seus movimentos eram comandados pelas enchentes e vazantes. Nos terrenos mais abrigados e mais próprios para o cultivo viviam tribos de lavradores, como os Guaná, de língua Aruak.

Historicamente, Guaicurus, Paiaguás e Cadiuéus foram de maior importância: belicosos, exerceram amplo domínio sobre as demais tribos, absorvendo-as a ponto de isso gerar confusão entre historiadores, e opuseram-se ferreamente ao colonizador.

Na região viveram outras tribos e grupos de maior ou menor conhecimento do homem branco, mas de igual importância, como os Xamacocos, Quiniquinauus, Guanás, Terenos, Guatós, Bororos, Caiapós, etc.

GUAICURU
Foram os primeiros a ter contato com o homem branco, através dos espanhóis, em 1535. Das nações que dominaram a região esta foi a de maior fama, e podem ter tido como tronco principal os m'bayas, que como cavaleiros, mantiveram língua, usos e costumes semelhantes. Grande número de etnógrafos reuniu sob essa designação todos os m'bayas, que podem ser tidos como tronco original, das tribos que como cavaleiros, mantiveram língua, usos e costumes semelhantes. Possuidores de índole bravia, assaltavam tribos sedentárias, impondo-lhes sua soberania e obrigando-as a lhes fornecer alimentos e tecidos para seu abrigo, sob pena de serem escravizados.

Fisicamente, o Guaicuru era um povo forte, de estatura alta, viviam de caça, pesca e da lavoura de subsistência a que se dedicavam. Crentes de que constituíam um povo superior, procuravam dominar outras tribos, levando à guerra permanente as tribos do Chaco. Os chamacocos eram os escravos preferidos e os mais procurados e, apesar de muito bem tratados, eram considerados de raça inferior. À custa de tratados, os guaicurus foram impedidos de percorrer áreas próximas ao  Rio Paraguai, com isso a obtenção de escravos tornou-se difícil. Assim entabularam relações amistosas com os chamacocos, os quais apesar da apreensão, conseguiram escravos no interior, na tribo dos tumamá, fosse pela força ou pelo comércio. Em troca, os guaicurus lhes forneciam cavalos, velhos fuzis e pasta de urucum.

O contato com os espanhóis em 1535 e o conhecimento do cavalo modificou os hábitos desse povo. Enquanto para outras tribos o cavalo surgira como um nova caça, para o Guaicuru constituía um meio de transporte rápido e uma facilidade maior na luta contra seus inimigos, tanto que ficaram conhecidos como "índios cavaleiros". Tornando-se cavaleiro, o Guaicuru passou a constituir séria ameaça aos conquistadores espanhóis e portugueses que procuravam apossar-se da região.

Segundo o etnólogo Darcy Ribeiro, o Guaicuru, transportado pelos cavalos, percorria todo o território do Pantanal, das proximidades de Cuiabá até Assunção (Paraguai), nas encostas andinas até as tribos do Guarani, na bacia do Paraná. Nem mesmo os jesuítas conseguiram aldeá-los em suas missões, reduções ou doutrinas.

Esses indígenas impediram de todas as maneiras que homens brancos entrassem na região do Pantanal, tornando-as morosas. Cita-se o episódio do Forte de Coimbra em 1778. Apareceu, em frente ao forte, um grupo numeroso da tribo Guaicurus, de ambos os sexos, de maneiras pacíficas, levando animais e objetos que se propunham a trocá-los por facões e machados. O comandante os acolheu não desconfiando de nada. No meio das permutas, colocaram em prática o que haviam tramado, convidando os soldados a manterem relações sexuais com suas mulheres, o que foi imediatamente aceito pelos militares. Neste meio tempo, valendo da confusão, puseram-se a matar por degola ou paulada 54 homens e retiraram-se sem a perda de um só membro da tribo.

Depois de outros incidentes de menor efeito, o Capitão-General de Mato Grosso, João de Melo Pereira e Cáceres, assinou em Bela Vista, em 1º de agosto de 1791, o tratado de paz e amizade com os principais caciques Guaicurus. Durante a Guerra do Paraguai, os Guaicurús foram de grande valia da defesa do Forte de Coimbra. Hoje, além de estarem preservados pelas gravuras de Debret, encontra-se alguns remanescentes na Serra da Bodoquena.

Quando o ouro de Cuiabá foi descoberto e estas terras começaram a ser mais desbravadas, os Guaicurus se aliaram aos Paiaguás, senhores quase absoluto de toda a Bacia do Paraguai. O século XX encontraria os Guaicurús reduzidos a cerca de 500 índios, divididos em grupos espalhados pelas fazendas de criação que aos poucos invadiam seu antigo território.

PAIAGUÁ
Nas duas margens do rio Paraguai a partir das terras habitadas pelos Guaicurus - nas elevações da Serra da Bodoquena, viviam os Paiaguás, conhecidos como índios canoeiros. Praticamente viviam sobre as águas do Paraguai. Eram nômades, nunca se fixavam em definitivo, e possuíam mais acampamentos do que aldeamentos.

Deslocavam-se com incrível rapidez. Peritos na arte de navegar, conheciam a fundo as rotas fluviais desde a confluência do rio Paraguai com o Paraná até as grandes lagoas Uberaba, Gaíva e Mandioré. Extremamente belicosos, tornaram-se odiados e temidos. Apenas os Guatós, que também eram exímios canoeiros, os enfrentavam em pé de igualdade. Mantinham relações de amizades e comércio apenas com tribos consangüíneas, inclusive os Guaicurús, dos quais eram aliados.

Os Paiaguás revelaram-se os mais implacáveis inimigos dos forasteiros. O mais antigo relato foi por volta de 1526 contra a comitiva de Aleixo Garcia, os componentes foram por eles trucidados quando voltavam do Perú carregados de riqueza nas proximidades do Rio Mboteteí (Rio Miranda). Quando os conquistadores conseguiam firmar raízes em um ou outro lugar, eram sempre atacados pelas duas nações indígenas - em terra, pelos Guaicurús e nas águas, pelos Paiaguás.

Com a fundação de Cuiabá em 1719 e a descoberta das minas de ouro, estabeleceu-se uma corrente migratória. Sendo o caminho feito pelos rios, abriu aos indígenas amplas perspectivas de espólios, que atacavam e roubavam para depois trocarem em Assunção por quinquilharias e objetos de baixo valor. Essas permutas eram incitadas pelos castelhanos, com os quais os índios vinham mantendo contato havia algum tempo, porque era interessante aos paraguaios que os índios dificultasse a entrada de portugueses e brasileiros no território do Pantanal.

Durante anos, homens brancos tentaram em vão aplacar a fúria dos Paiáguas com comitivas armadas e em números bem maiores do que os índios, porém não conseguiram vitória em nenhuma delas. Diante de tal situação, as autoridades pensaram em firmar um acordo de paz com os Guaicurús,  a fim de destruir assim a aliança com os Paiaguás e enfraquecer as duas tribos.

O acordo foi levado pelo Capitão Antônio João de Medeiros, que partiu com uma frota de 12 canoas e140 homens, levando mercadorias para barganha. Encontrado o cacique, foram bem recebidos, trocaram as mercadorias e fizeram as transações e estabeleceram as bases para um acordo. Confiantes os soldados saltaram em terra na manhã seguintes desarmados. Aproveitando a oportunidade que esperavam, os Guaicurús atacaram a pauladas e exterminaram, só neste ataque cerca de 50 soldados. Quando se percebeu o que estava acontecendo, ativaram a artilharia, mas já era tarde. Os índios dispersaram-se pela mata, sendo atingido somente 5 de seus componentes. Com isso, suspenderam-se todas as negociações, e passaram a trafegar fortemente armados, a fim de se defenderem contra os ataques indígenas.

Em vista da hostilidade dos indígenas, tornava-se óbvio que o único meio de se evitarem esses combates seria a abertura de um caminho por terra que ligasse Cuiabá a São Paulo, através de Goiás e Minas Gerais, que começou a ser explorado a partir de 1737, para abastecer o mercado cuiabano e trazer as riquezas das minas de ouro. Foi a solução encontrada pelos conquistadores portugueses e brasileiros para se livrarem dos cavaleiros e, principalmente dos terríveis canoeiros.

Lutas internas na tribo dividiu-a em diversos grupos, quebrando a união que lhe dava força. Além da varíola surgida durante a Guerra do Paraguai, após a retomada de Corumbá, o consumo de bebida alcoólica fornecida pelos fazendeiros destruiu valores desse povo.

CADIWÉU
Muito ligados aos Guaicurus, com características étnicas semelhantes e costumes parecidos, tiveram um destaque maior em conseqüência da separação que houve dentro das tribos. Viviam nas terras de Bodoquena, espalhando-se pelas planícies do Pantanal de nabileque e pelos campos entre o Miranda e o Apa, nas regiões dos atuais municípios de Corumbá, Bonito, Nioaque, Guia Lopes da Laguna, Jardim, Bela Vista e Murtinho.

Era um povo pacífico, o que não impedia de viverem em luta de extermínio contra os Xamacocos, inimigos da tribo. A disputa era mais defensiva que ofensiva, constituía em defender suas terras dos adversários que, emigrados do Chaco, achavam-se senhores da região. Dedicavam-se à caça e pesca e faziam comércio com os povos vizinhos e até mesmo com os conquistadores, fornecendo-lhes peles de animais silvestres. Eram nômades, de vida tranqüila e ficavam alheios aos acontecimentos que envolviam os outros povos indígenas.

Atualmente existem poucos remanescentes do grupo Cadiuéu, estes poucos estão miseravelmente estabelecidos na Reserva Indígena da Bodoquena, área que lhes foi doada pelo Imperador Dom Pedro II como recompensa pela sua participação na Guerra do Paraguai (Tríplice Aliança). É uma área de 373.024 hectares, que tem parte arrendada a fazendeiros e parte invadida por posseiros, chegando o número destes ser bastante elevado.

GUANÁS
Localizavam-se à margem direita do Rio Paraguai. Vizinhos dos Guaicuru, com eles passaram a ter grande afinidade, mesclando a língua e até mesmo o sangue com casamentos entre as tribos. Sedentários, dedicavam-se a lavoura, fornecendo alimentos aos povos vizinhos. As mulheres eram exímias na arte de tecelagem de algodão.

Mantinham bom relacionamento com os brasileiros do Forte de Coimbra. Quando este foi atacado pelos paraguaios, foi o cacique Nixinica, que subindo o Rio Paraguai, alertou os brasileiros sobre a aproximação do inimigo. O próprio comandante do forte Ricardo Franco de Almeida Serra se casou com uma Guaná, que passou a ser conhecida por Mariana Guaná.

GUATÓ
Viviam na região das grandes lagoas. Como os Paiaguás, ficaram conhecidos como índios canoeiros. Dominaram por longo tempo o trecho do Rio Paraguai e parte do São Lourenço. O fato de passarem muito tempo dentro das canoas com suas mulheres e filhos explica o fato de terem as pernas arqueadas. Profundos conhecedores das baías Uberaba, Gaíva e mandioré, orientavam-se perfeitamente no labirinto das lagoas.

Ignora-se a sua origem lingüística, constituindo-se, como os Bororos, um grupo independente. Culturalmente aproximam-se dos índios do Chaco, mas o tipo físico não é semelhante. Possuem estatura mediana, compleição robusta, corpo bem talhado, tez mais clara que o habitual, rosto oval , cabelos lisos e características mongolóides presentes.

Valentes caçadores, costumavam matar onças, o que lhes davam o direito a cada caça a uma companheira. Conta-se que alguns chefes chegaram a possuir mais de uma dezena de mulheres. Dedicavam-se a agricultura. Plantavam mandioca, milho e cereais de outras espécies.

Viviam bem com as demais nações indígenas, com exceção dos Paiaguás com o qual lutavam constantemente, porém os Paiaguás não os atacavam dentro de sua região, pois temiam se perder pelas lagoas.

Aos primeiros contatos com os colonizadores, não manifestaram hostilidade, servindo até de anteparo para o trânsito das monções ante aos ataques dos paiaguás. Foram facilmente dominados pelos colonizadores. No início do século XIX a tribo já apresentava sintomas de enfraquecimento, isolando-se em núcleos reduzidos. Hoje estão representados por um grupo pequeno semi-aculturado, no máximo de cem indivíduos, localizados nas proximidades do canal Pedro II, chamado Rio Pando pelos bolivianos, que liga a lagoa Mandioré à de Gaíva.

XAMACOCO
Pertencem a família dos Samucos, que vindo da região chaquenha, habitaram a região do Rio Miranda. Diferenciavam-se como um grupo lingüístico independente, com um dialeto próprio, sem pontos de contato que os identificassem com as outras tribos. Em face de seu isolamento na região, acabaram por se mesclar com seus vizinhos, perdendo grande parte das características étnicas que os individualizavam. Mesmo a língua sofreu influências.

Os Xamacocos se miscigenaram com outras tribos da região, principalmente Guanás e Quiniquinaos, a ponto de serem com eles confundido. O mesmo não acontecia com relação aos Guaicurus, que os aprisionavam, os vendiam ou os mantinham em estado de escravidão.

Entretanto, antes do êxodo que empreenderam, eram índios valentes, de qualidades guerreiras, em constantes lutas com os Cadiuéus. Enfeitavam-se fartamente de plumas e colares. Não perfuravam os lábios; apenas as orelhas. A organização social deixava a desejar, com um chefe com relativa autoridade, os laços afetivos não eram fortes e, por isso, houve a desagregação da unidade tribal.

Com essa decadência, sem possibilidade de recuperação, numerosa corrente de Xamacocos emigrou para a região de Albuquerque, passando a viver com os Guanás e Quiniquinaos, enquanto que outros refugiaram-se na missão jesuítica de Nossa Senhora da Misericórdia. Em 1845, a sua população era estimada em 400 pessoas. Hoje está completamente extinta.

TERENOS
Da família Aruaque, do tronco Guaná. Se deslocou da região do Chaco paraguaio depois da expulsão dos jesuítas e decadência dos Guaicurus. Localizou-se na região de Miranda, em fins do século XVIII. Deixou-se domesticar facilmente, adotando costumes e armas dos brancos.

Atualmente, no município de Aquidauana, 1.500 remanescentes da tribo Terena, homens, mulheres e crianças, são assistidos pela FUNAI. Este povo vem apresentando ultimamente um sensível aumento demográfico. Hoje, a população é calculada em 4.500 indivíduos, sem contar os mestiços. A histórica povoação teocrática Santiago de Xerez, nas margens do Mboteteí, localizava-se em território Terena.

QUINIQUINAO
Pertencia a família Aruaque e falava dialeto próprio. Povo de índole pacífica. Habitava a região delimitada pela serra do Urucum e regiões próximas a Albuquerque, no atual município de Corumbá. De feições delicadas e pele clara, as mulheres apresentavam traços de rara beleza entre os indígenas da região. Deixaram-se catequizar facilmente, aldeando-se em torno da missão de N.S.da Misericórdia. Durante a guerra do Paraguai, foram dispersados, sendo os primeiros a refugiarem-se na Serra de Maracajú.

Hoje em dia não mais se encontram pessoas puras da família aruaque, da linha Quiniquinao. A miscigenação se processou a partir da segunda metade do século passado e decisivamente foi o fator principal de seu desaparecimento.

BOROROS
Não podem estes índios ficar alheios a um levantamento das tribos da região. Apesar de terem vivido mais ao norte, desceram até a planície, além do Rio taquari, em pleno Pantanal. Os Bororos constituíram um numeroso grupo lingüístico isolado que, desde tempos pré-históricos, se radicou em pleno centro da América do Sul. Se fixaram a oeste e a leste do Paraguai superior, do Rio Cabaçal à região das grandes lagoas e se espalharam pela região a leste do rio Cuiabá.

Possuíam elevada estatura e enfeitavam-se com apurado requinte para as festas tribais. Não se locomoviam pelas águas como as tribos locais, preferiam o deslocamento por vias terrestres.

Os Bororos contribuíram na construção das linhas telegráficas de Mato Grosso, conforme depoimento de Frederico Rondon, que percorreu esta área por volta de 1936. Já nessa época não mais existiam representantes puros, pois estavam mesclados com  brancos e mestiços.

OFAYÉ XAVANTE
Donos de um território que ia do Rio Sucuriú até as nascentes dos rios Vacarias e Ivinhema, com uma população estimada em mais de cinco mil índios, a nação dos Ofaié Xavante se resume hoje a pouco mais de meia centena de pessoas, em uma reserva no município de Brasilândia. A história desse povo está relacionada à violência, perseguição e ao extermínio, chegando a serem dados como extintos por antropólogos e historiadores.

Desde os primeiros contatos com a civilização, os Ofaié resistem à interferência em suas terras e cultura, procurando lugares cada vez mais isolados. Os primeiros foram registrados nas abundantes florestas das margens do Rio Paraná, no início do século XVII. Foi quando teve início o verdadeiro pesadelo que quase os levou ao extermínio. Além de serem perseguidos por outros povos indígenas que habitavam a região por causa de sua passividade, tinham no seu encalço os caçadores de escravos.

Eles eram procurados pelos paulistas por serem excelentes serviçais e substituir os índios rebeldes. Com a descoberta do ouro no Estado e o povoamento de suas terras com fazendas de criação de gado, os Ofaié viveram perambulando pelos lugares mais remotos, até conseguirem se reagrupar nas margens do Rio Paraná.

De estrutura franzina e arredios a qualquer contato com outros povos, os Ofaié viviam em pequenos grupos, sempre em constante mudança, fugindo dos índios Kaiapó e Guarani, buscando as florestas para escapar de seus captores. Eles viviam exclusivamente da caça, pesca, coleta de frutas e mel.

Instalados em precárias moradias que ocupavam por breves períodos, mantinham pequenas aldeias com o máximo de 20 famílias. Suas habitações eram distribuídas de forma circular, tendo um espaço na área central onde realizavam suas festas.

O cacique, líder da comunidade, tinha algumas regalias, como a de possuir a melhor localização habitacional, além de objetos pessoais adornados com penas de pássaros e dentes de animais selvagens. Os cargos eram transmitidos hereditariamente, podendo haver substituição caso não houvesse interesse do titular.

O feiticeiro, ou pajé era o conselheiro espiritual da comunidade. Cabia a ele dar os nomes aos recém-nascidos, que eram de pássaros que não podiam ser abatidos por quem tinha o nome. O núcleo familiar do Ofaié é de grande importância. Depois do casamento, o marido geralmente leva a esposa para morar em uma cabana próxima à moradia de seus pais ou muitas vezes morando com eles.

GUARANI
Senhores dos ervais da fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai e com uma área superior a dois milhões de hectares, a nação Guarani, do tronco Tupi, ainda resiste às investidas do homem branco e luta pela retomada de parte de seu território. Nômade e coletores que tiravam da natureza somente o necessário para a sobrevivência, eles tiveram seu território reduzido drasticamente. A população ficou dividida em 22 pequenas áreas em 16 municípios no sul do estado.

Desde a entrada dos exploradores espanhóis em 1516 na Bacia Platina, os guaranis começaram a ser perseguidos e os que resistiam eram exterminados. No ano de 1600, o governador de Assunção no Paraguai informou ao Rei da Espanha que era impossível dominar os índios e que deveriam ser submetidos aos ensinamentos evangélicos.

Surgiram as reduções jesuíticas que pagavam imposto à Coroa, e que na verdade eram grandes “colônias de escravos”, onde os índios eram obrigados a trabalhar na extração da erva mate e na agricultura. Essas missões, apesar do caráter religioso com que se revestiam, funcionavam na realidade, como empresas econômicas, comercializando no mercado externo os bens produzidos pelos indígenas. As crenças e hábitos dos índios eram ridicularizados pelos religiosos, que os obrigavam a se vestir e trabalhar segundo as regras rigidamente estabelecidas e que nada tinham a ver com o modelo de vida indígena.

Os bandeirantes portugueses destruíram mais de 30 reduções e o que restou foi extinta com o banimento de seus membros.Os guarani partiram em deserção para o Oeste e se estabeleceram numa área entre a Serra de Maracaju e a margem direita do rio Paraná. Por um breve período tiveram paz.

Depois da Guerra Brasil Paraguai, o comendador Tomáz Laranjeira descobriu que toda área Sul de Mato Grosso tinha na erva mate sua exuberância vegetal nativa e estabeleceu fazenda em Dourados e Amambaí. A exploração do mate trouxe o prenúncio do fim do mundo Guarani. Os índios foram expulsos de suas terras e os que ficaram foram utilizados como mão-de-obra escrava, trabalhando por ferramentas, tecidos e sal. No século XIX, a Cia Mate Laranjeira, ocupou quase toda a área tradicional Guarani.

CAIUÁ
Eles vivem na região sul do Estado e no passado eram milhares ocupando 40% do território que compreende Mato Grosso do Sul. Pertencem ao tronco lingüístico Tupi e é um dos únicos grupos indígenas que tem noção de seu território.Durante a exploração da erva mate, as comunidades ficaram em pequenas reservas, e até hoje seus territórios sagrados continuam a ser invadidas por fazendeiros e agricultores. Em sua cultura, acreditam que foram os primeiros a serem criados por Deus, vindo depois os Guarani, outros grupos indígenas e os brancos.

Desde a chegada dos colonizadores, os Caiuá sempre foram confundidos com os Guarani, por terem como base o mesmo idioma, apesar de suas culturas e aspectos físicos serem diferentes e considerados únicos. Dentre seus costume está o preparo da chicha, bebida de milho cozido e fermentado, usado na alimentação, rituais e festas.

O Caiuá tem uma estatura mais alta e sempre viveu da caça e da pesca, plantando somente o necessário para o sustento da família. Sua alimentação baseia-se, no milho, considerado alimento sagrado, a mandioca e, atualmente, o arroz. Eles se denominam Kaáguygua. Os Guarani tem estatura mais baixa com hábitos alimentares baseados em frutas e mel, além da caça e da pesca.

As duas nações também realizam o Aty Guasu, que é uma reunião com os 28 caciques das áreas indígenas da região sul do estado. Essas assembléias servem para decidir os trabalhos que serão realizados nas aldeias Guarani e Caiuá.

Uma das manifestações culturais mantidas até os dias atuais é o Jerokiguasu ou a grande reza. Essa maneira diferente de louvar seu deus confundia os europeus, que acreditavam que os indígenas estavam apenas dançando. Ela é realizada durante um período em que ocorre o nascimento de muitas crianças que são batizadas com seus nomes na língua nativa. O Nhanderu, ou pajé, reza durante três dias, ingerindo cauim e água de cedro. No quarto dia, o Cheru Hyapu Guasua manda para o céu o nome das crianças que nasceram nos últimos meses. O controle de natalidade é feito com ervas medicinais e os partos são realizados na aldeia e quase sempre sozinhas. Não há crianças abandonadas. Na falta dos pais, são sempre adotadas por uma família.

Na década de 50, os Caiuá moravam em casas grandes, que eles denominavam O gajekutu, reunindo até cem pessoas da mesma família grande. Atualmente elas cederam lugar a casas geralmente pequenas, abrigando apenas a família nuclear, embora mantendo a proximidade territorial com os demais membros da família extensa, pais filho e genros, que são base organizacional.

OUTROS POVOS
Muitas outras dezenas de povos indígenas habitaram esta região, como os Guaxi, Abaxi, Araés, Chané, Beaqueo, Caiapó, Chorono, Caivaba, Coroa, etc, dos quais quase nada há registrado e que desapareceram vitimados pelo aparecimento do homem branco.

A região centro-oeste foi uma das maiores em densidade demográfica indígena no Brasil. Os jesuítas conseguiram juntar a maior parte dos índios em suas missões , que durante a Guerra do Paraguai tiveram um contato maior com os brasileiros.

Poucas dessas tribos indígenas conseguiram sobreviver como grupo até os dias atuais. As que o fizeram, encontram-se sob processo de aculturação e são descaracterizadas por mestiçagem. Cadiwéus e Terenos, ambos marcando presença por um bonito artesanato de cerâmica, são algumas dessas tribos remanescentes.

Fontes: Carlos Roberto Cerqueira - Pós-graduando em docência do Ensino Superior
CIMI - Conselho Indigenista Missionário.

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PRINCIPAIS LEIS ESTADUAIS RELACIONADAS AOS POVOS INDÍGENAS
Lei nº 2.787, de 24 de dezembro de 2003
Lei nº 2.791, de 30 de Dezembro de 2003
Lei nº 2.589, de 26 de Dezembro de 2002
Lei nº 2.071, de 6 de janeiro de 2000
Lei nº 1.826, de 12 de Janeiro de 1998



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